Relato de curetagem (aborto espontâneo retido)

Há sete meses, eu descobri que estava grávida novamente, mas a gravidez não evoluiu. Se não tivesse perdido o meu bebê, era para estar nos dias de nascer.
Eu protelei meses para escrever sobre uma das experiências mais difíceis que passei, principalmente pela falta de empatia e amor dos “profissionais” que me atenderam.
Abaixo segue o relato desde a descoberta da gestação.

Meu ciclo menstrual atrasou e havia uma possibilidade remota de gravidez. Fiz um teste de farmácia e deu negativo. Alguns dias depois fiz o exame de sangue e deu positivo.
A gravidez não havia sido planejada, mas foi recebida com amor e alegria.
Eu estava sem plano de saúde e iniciei o pré-natal no postinho de saúde, pelo SUS.
Infelizmente, nosso sistema de saúde é bastante precário (só para terem ideia, aguardo para fazer uma ecografia mamária desde dezembro).
Eu estava com oito semanas quando tive um pequenino sangramento. Fui imediatamente à maternidade vinculada ao posto de saúde do meu pré-natal.
Fizeram exame de toque e me disseram que a princípio estava tudo normal. A médica agendou uma ecografia para cinco dias depois.
Resolvemos fazer particular no dia seguinte e descobrimos que não havia um coraçãozinho batendo, a gravidez não havia evoluído e que estava com aborto retido.
Voltamos para a maternidade e o médico agendou uma curetagem para o dia seguinte pela manhã.
Chegamos na maternidade, às 8 horas, fiz uma nova ecografia e o obstetra nos direcionou a fazer a internação. O médico me assegurou que se tudo ocorresse bem, eu já teria alta no mesmo dia.
Ficamos aguardando uma hora na recepção e mais um tempo pra disponibilizarem um quarto.
Às 10 horas fui para o quarto, colocaram um medicamento para dilatar o colo do útero.
Eu me agarrei à expectativa da alta, tudo o que mais queria era ir embora daquele hospital e encontrar a minha filha que ainda mamava, que nunca tinha ficado longe de mim e do pai ao mesmo tempo. Ela estava em ótimas mãos, sendo cuidada pela minha mãe que veio de Minas imediatamente, assim que soube do ocorrido.
14 horas da tarde eu estava em jejum desde a noite anterior e nada de fazerem o procedimento.
Já comecei a ficar nervosa, pedi ao meu marido que chamasse a enfermeira. Eu queria fazer esse procedimento logo para ir embora para amamentar e cuidar da Elis.
Fez toda a diferença ter o meu marido junto comigo, ele me amparou em todo momento e teria sido péssimo enfrentar tudo sozinha.
Às 15 horas, fui pro centro cirúrgico fazer a curetagem, meu marido não pode me acompanhar e eu tive uma crise emocional. Não conseguia controlar o choro, comecei a tremer muito de nervoso.
Fui medicada e amarrada pelos braços e pernas. Fiquei me sentindo pior que um animal.
Entrou o anestesista, ninguém me explicou nada, veio uma médica novinha, não se apresentou, ficou conversando assuntos aleatórios com o anestesista, enquanto eu chorava e tremia, até adormecer.
Acordei não tinha ninguém na sala, depois de um tempo, a enfermeira veio, ela disse que ocorreu tudo bem, me passou para a maca e me deixou num corredor sozinha por quase uma hora.
Quando passou uma moça da limpeza falei que já estava ali sozinha há muito tempo, ela falou com alguém e me levaram para o quarto.
Seria muito melhor terem me levado para o quarto e estado na companhia do meu marido, do que ficar literalmente largada sozinha num corredor.
Eu estava esgotada, faminta e só queria ir pra casa.
Me serviram uma sopa e me informaram que por volta das 18 horas passariam para dar as altas e avaliar os pacientes.
Mas trocaram o plantão e nada de ninguém passar para dar alta.
Fisicamente eu estava bem, todo o procedimento foi indolor, mas psicologicamente eu estava dilacerada, não bastava ter perdido um bebê que em poucas semanas tinha ganhado o meu amor, não bastava ter sido vítima de violência obstétrica no centro cirúrgico e ainda provavelmente iriam me largar ali para ter alta somente no dia seguinte sem necessidade alguma.
Eu conversei com o meu marido e decidimos ir embora. Troquei de roupa e descemos para procurar o médico que faz atendimento de emergência.
Falamos com a atendente, explicamos toda a situação. Meu marido falou mais algumas pessoas e por volta das 20 horas, conseguimos a alta, por uma médica que não me avaliou e nem me explicou bulhufas.

Foi uma benção voltar para casa e encontrar minha filha foi como um refrigério para alma.
Sou grata a Deus por não ter vivido tudo isso numa primeira gestação. Ter uma filha é um motivador diário para não esmorecer.

Os dias seguintes foram tranquilos, fiz repouso e não houve sangramento abundante. Ter minha mãe e meu sobrinho por aqui, também foi muito bom, pois eu não tinha tempo de pensar no ocorrido e sofrer pela perda.
Tudo o que eu tinha para chorar, eu chorei naquele centro cirúrgico. Desejo de todo o coração nunca mais precisar pisar naquela maternidade.

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